Por um 2015 com menos especialistas

Estive mais ausente das discussões nas redes sociais em 2014. Mas sempre acompanhando de perto o que estava acontecendo na rede. Nem vou falar das discussões políticas que foram influenciadas pelas eleições presidenciais, se este ano o povo continuar assim tão “politizado” dai escrevo sobre o assunto. Falo dos movimentos sociais dos mais variados segmentos e devo dizer, houveram momentos em que tive vontade até mesmo de não acompanhar mais nada de tantos absurdos que li este ano que passou.

Eu vi crescer um fenômeno que sempre me incomodou e ganhou uma força enorme. Com o perdão da expressão, me refiro a cagação de regra que jorra nos comentários da internet. As pessoas de repente se tornaram especialistas em tudo. Héteros, LBGTs, movimento negro, movimento de classes, cada um reivindicando para si as “normas de conduta” que cada um deve seguir para se enquadrar no grupo. Para não causar um furor desnecessário, vou usar nosso grupo como exemplo (presumindo que você leitor seja ateu ou agnóstico).

Costumo acompanhar muitos canais do Youtube, especialmente canais de alguns ateus conhecidos. Sempre digo a mim mesmo para não descer aos comentários, mas minha curiosidade de comunicador não me permite tão feito. Não demora muito para me arrepender e começo a ver os comentários dos especialistas. “Um ateu de verdade não faz isso”, “ateu mesmo não faz aquilo”, “se é agnóstico, porque pensa assim ou assado”. É tanta regra e/ou norma, como preferir que já deveriam ter escrito um livro para facilitar o aprendizado. Mas dai eu pergunto: baseado em que as pessoas chegam a tais conclusões? Senso comum seria uma opção, mas não tem base científica. Com base científica podemos chegar a resultados negativos, já que as necessidades biológicas são bem primitivas. Baseado nas construções sociais as quais fomos submetidos, mas dai perdemos as nuances do ser humano, aquilo que cada um traz consigo. Baseado em uma moral universal, me parece o melhor caminho mas dai nem tudo que não é moral é ilegal, devemos deslegitimar escolhas pessoais em função disso? Veja que para cada escolha, temos tantas dúvidas que eu diria que é uma missão árdua essa de tomar para si a legitimidade de um movimento. Isso que fiquei apenas no terreno do ateísmo, expanda este universo para o seu grupo social, seja ele qual for e tente encaixar estas mesmas perguntas.

Dai você pode argumentar “mas é legal ter um norte, ter uma linha de pensamento ajuda a criar uma unidade no grupo”. Concordo, e até apoiaria tal pensamento se não fosse o efeito colateral: o isolamento do indivíduo singular. Por exemplo, se você é um ateu que tem um pensamento diferente do que é considerado o “normal” para o grupo, a tendência é que você seja questionado, criticado e por fim, discriminado dentro do grupo. Vi isso recentemente com a criação do termo “neo-ateu”, para mim pejorativo e desnecessário. É possível encontrar este comportamento em outros grupos, especialmente nas minorias, o que para mim não faz o menor sentido, já que o grupo já sofre o suficiente sem a ajuda dos elementos internos. Não digo que isto seja uma regra e que todos ajam desta forma, mas basta uma parcela agir assim para criar uma pequena ruptura no grupo. Para deixar claro o pensamento, não critico aqui a discordância e a troca de argumentos, critico a forma como alguns elementos se tornam a autoridade do assunto, se achando assim no direito de determinar o que é certo ou errado, aceitável ou não. Falei apenas do movimento ateísta, mas vejo isso de forma muito mais intensa em outros grupos.

Eu espero que em 2015 este comportamento seja revisto, claro que não espero que com este artigo eu vá mudar os rumos da internet e os comentário do Youtube se tornem um mundo de ideias bem debatidas e receptivo ao diferente. Mas se cada um puder ao menos tentar não ter esta atitude e puder ajudar outros a repensarem se isto é justo e correto, acredito que já terá valido a pena escrever este artigo. Mas se você discordou e acredita que é assim que deve ser, continue. Afinal, a última coisa a que este artigo se propõe é a cagar alguma regra.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s