Quarta-feira é dia de Iansã

Epahey Oyá meus amigos! Calma, não estou me convertendo ao candomblé. Depois de muito pensar sobre o ocorrido na Faculdade de Direito do Recife (se não sabe do que se trata, clique aqui) eu decidi não escrever sofre o fato em si. Primeiro porque eu acredito que já foi amplamente divulgado, embora acredite que o assunto não está sendo tratado com a devida atenção, se fosse a outra santa a ter a cabeça decepada será que já não teriam sido encontrados os autores? Segundo porque acredito que esta é uma boa oportunidade de conhecermos a cultura do povo dos terreiros.

Iansã como bem explicado pelo Movimento Estudantil Zoada, é uma orixá feminina que não aceita os papeis impostos a mulher na sociedade. Seu nome é Oyá, sendo Iansã um título dado por Xangô, seu segundo marido. Para ele, Oyá é radiante como o entardecer, daí o título (Iansã pode ser traduzido como “a mãe do entardecer”). Orixá dos ventos e tempestades, ela se distancia dos afazeres domésticos sento mais ligada aos campos de batalhas e as grandes aventuras. Foi esposa de Ogum, e depois foi esposa de Xangô, que segundo a mitologia foi seu grande amor. Aliás nesta matéria Iansã também tem sua marca, é conhecida por ter várias amores, sempre um de cada vez já que é conhecida por suas paixões arrebatadores, mas também por sua sinceridade e fidelidade. Também recebe o título de orixá das paixões. Sempre intensa, está é Iansã, uma orixá de paixões arrebatadoras e personalidade forte. Como se não bastasse tudo isso, ainda é a senhora dos Eguns (espírito dos mortos), controlando e guiando estes espíritos. Tem como não gostar de uma história dessas?

O Movimento foi muito feliz na escolha da orixá, pois ela representa basicamente os direitos que hoje são reivindicados pelas mulheres, desde suas liberdades até o papel que lhes é imposto na sociedade. Se as pessoas ao menos tivessem a curiosidade de conhecer um pouco desta história talvez entendessem a importância dela dentro de um contexto social muito pertinente neste momento que vivemos. Acreditar ou não em Iansã enquanto divindade não diminui a importância da figura neste contexto.

Mas ao mesmo tempo convido vocês a fazerem um exercício mental: será que justamente a característica livre de Iansã em contraponto ao papel de submissão que via de regras as santas católicas se dispõem a exercer não seria mais um fator de preconceito? Será que as mulheres católicas olhariam com respeito e admiração para uma deusa divorciada? Se ao invés de Iansã fosse uma estátua de Iemanjá, orixá mais conhecida por sua vocação materna e cuidadora seria diferente?

Os cultos de matrizes africanas sofrem múltiplos preconceitos, seja por sua característica politeísta, seja por sua origem negra ou pela associação que os cristãos, de forma mais marcante nos protestantes neo-pentecostais, fazem de suas divindades com entidades demoníacas. Infelizmente é comum, embora me cause uma revolta enorme, ouvir um “ta amarrado” logo após uma saudação do candomblé ou da umbanda. Um desrespeito absurdo que somos forçados a conviver muitas vezes.

Meu objetivo ao escrever este texto é trazer a reflexão sobre este tema, que é muito mais do que um simples ato de vandalismo. Este ato é resultado de um sistema de pensamento forte, arraigado na cultura do brasileiro médio de tal modo que convivemos com isso como algo aceitável. Não apenas não é como sempre que possível deixo minha solidariedade e meu respeito ao povo dos terreiros. Epahey Oyá!

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