O discurso neopentecostal e a surdina

É comum ouvirmos, lermos, assistirmos a discursos de enfrentamento a fundamentalistas cristãos, no Brasil. Diz-se que eles são contraditórios, que são hipócritas, que, sendo religiosos, deveriam pregar amor e respeito, e não o ódio contra minorias. Muitos afirmam que esses pastores são ignorantes e não sabem do que falam. Há, ainda, quem acredite que seu discurso é vazio, esdrúxulo e folclórico, que não devemos levá-los a sério.

Mas nenhum gesto, nenhuma palavra emitida por esses “líderes” religiosos vem ao acaso nem desprovida de intenção. Falam para pessoas desesperadas, abandonadas pela sorte, abandonadas pelas instituições, abandonadas pela sociedade e pelo Estado.

Certo filósofo alemão disse certa vez que “a história de todas as sociedades tem sido a história das lutas de classe”. E as religiões estão incluídas nesse contexto. Sempre estiveram presentes e influenciaram as grandes questões sociais. De um modo ou de outro.

A guerra contra o Movimento LGBT e contra as religiões de matriz africana não é uma questão religiosa. É uma questão de estratégica. Porque se encaixa no argumento “está escrito na Bíblia”. E pronto, já fundamentam seu discurso de ódio. Além disso, costumam estender esse argumento às ciências, pois como já afirmou o divulgador científico e astrofísico Neil deGrasse Tyson, “Deus é um bolso cada vez mais vazio”. Ou seja, o que antes era argumento da religião, hoje é teorizado pela Ciência, e cada vez menos aceitamos explicações fantásticas a respeito da vida e do Universo. Portanto, no discurso neopentecostal, a Ciência “não é de Deus”.

Marcos Feliciano, Silas Malafaia, Valdomiro Santiago, Edir Macedo, Missionário R.R. Soares, entre outros, fazem parte de um processo de teocratização, no Brasil e no mundo. Eles encontram espaços aonde as instâncias de Governo não vão, aonde a sociedade não quer ir.

Seu discurso é baseado nos escritos sagrados da Bíblia, na verdade bíblica. Mas sabemos todos como eles são inteligentes o bastante para filtrar o que lhes interessa, o que lhes convêm citar. Criaram uma espécie de universo paralelo, onde o mundo se divide entre os que amam a Deus (judaico-cristão-evangélico-neopentecostal, claro) e os que queimarão no mármore do Inferno.

São articulados, sistemáticos e extremamente organizados. Avançam à surdina. Compram emissoras de rádio e TV, gráficas, editoras e pequenos negócios em regiões suburbanas. Elegem bancadas (ditas) evangélicas em câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Alcançam altas esferas no Governo Federal. Não é à toa de estão na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e no Ministério da Ciência e Tecnologia. Cada passo que dão caminha para um projeto de Poder. Querem implantar, no Brasil, uma teocracia neopentecostal.

É por isso que devemos, todos os dias, defender a laicidade do Estado brasileiro. É preciso garantir o livre culto, mas também o livre pensar. Precisamos entender que esse “avanço do retrocesso”, como costumo chamar, é um assunto da nossa conta. Precisamos denunciar e combater essa máfia da religião, esses mercadores da fé.

sai-tolerancia

Além disso, há religiosos que condenam e ajudam a combater essa teocratização do país e falam em defesa do Estado laico. Pessoalmente, tenho amigos cristãos (e não cristãos, mas religiosos) que jamais promoveram qualquer ato contra homossexuais, ateus e agnósticos, ou contra religiões de matriz africana. Esses, aliás, parecem ser os alvos preferidos dos neopentecostais.

Mas nosso discurso não deve ser do ódio, da intolerância à crença alheia, mas o discurso da liberdade de livre culto, de livre pensamento e de respeito às diferenças. Afinal, Estado laico é Estado neutro.

EstadoLaicoNaçãoJurídica

Significado de Estado laico: http://www.significados.com.br/estado-laico/

Espalhe as hashtags #TeocraciaNÃO #RespeitoÀsDiferenças #EstadoLaicoEstadoNeutro #APE.

Um Comentário

  1. Yigal Cavalcanti Hofmann

    É acertado e razoável combater o obscurantismo milenar da superstição religiosa, e sua postura reacionária e conservantista, que impõe à humanidade uma indigna e cruel servidão, fundamento daquela maior, oriunda de sua subordinação política e escravidão econômica. Enquanto persistir a religião, e toda a alienação e negação da universalidade que ela em sua afirmação de Deus e inferiorização do humano universal comporta; a humanidade não se emancipará, e sempre será vítima sádica e inocente útil dos que exigem o pesado tributo do sacrifício de milhões, para a felicidade de umas poucas beneficiárias elites. A religião sacraliza, diviniza, eterniza estruturas injustas e desumanas ancestrais, como a autoridade e a hierarquia. É a pior praga que assola a humanidade, e mantêm os homens como reféns; das mazelas sociais, históricas, interpretadas pela alienação religiosa como castigos, culpas e pecados. Devemos unir-nos todos nessa luta! Parabenizo a vossa iniciativa, e associo-me convosco nessa árdua militância pela efetivação universal da liberdade da consciência humana, livre de deuses, dogmas, pais, patrões e padrões, como dos demais e todos podres poderes!

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