A Punição da Vítima

Júlia Rebeca - Foto: Reprodução/Instagram

Foto: Reprodução/Instagram

Júlia Rebeca, uma jovem na cidade de Parnaíba no interior do Piauí tem um vídeo divulgado no Whatsapp em um momento íntimo com um rapaz e outra jovem. Parece que a história se repete, não faz muito tempo uma jovem de Goiânia passou por caso semelhante. Embora tenham finais bem diferentes, estes dois casos tem em comum o fato de que a vítima é severamente punida, enquanto seu algoz até o momento sequer punição sofreu. 

Nossa sociedade mais uma vez culpa a vítima quando, no caso da jovem goiana, faz uma verdadeira execução social. A vítima não pode sair de casa sem ser agredida verbalmente, sem ser perturbada por pessoas que sequer conhece. Fica condenada a uma espécie de prisão domiciliar, inclusive com prejuízos financeiros já que não pode mais ir trabalhar. No caso da Júlia, talvez motivada pela repercussão que o caso Fran teve, não quis passar por todo esse constrangimento e optou por tirar a própria vida.

Em ambos os casos percebemos que a condenação é exclusivamente feminina. Ela se deixou filmar, ela é uma vadia, ela não tem moral, ela, ela, ela. Bem, e ele? Afinal ela não estava sozinha, nenhuma das duas aliás. Ele é um vadio? Ele é um vagabundo? Claro que não, porque na nossa sociedade machista ela não tem direito ao prazer, a simplesmente querer fazer sexo, ter desejo. Ele sim é o pegador, o cara que “garantiu”, fez o papel dele. Isso é tão absurdo em tantos níveis que eu fico me perguntando como podemos estar em pleno século XXI com esse tipo de mentalidade prevalecendo em uma parcela tão grande da sociedade.

Nos vários sites que repercutiram as notícias li muitos comentários de apoio as vítimas, mas infelizmente li muito mais comentários que revertem a culpa para a vítima. “Por que se deixou filmar se não queria que fosse divulgado?”. Creio que este tenha sido o mais recorrente, além do argumento “vadia tem mais é que se f*** mesmo”. Bem, se deixar ou não filmar é absolutamente irrelevante, o fato aqui é que houve uma quebra de confiança por parte de alguém que se presumiu que fosse respeitar o foro íntimo do vídeo. E não estamos falando de algo grave, é apenas sexo. Duas pessoas fazendo sexo livre e consensual. Você pode ter qualquer opinião sobre isso, ser contra ou a favor. Mas sua opinião não pode se sobrepor ao direito destas pessoas exercerem esta liberdade. Quando as pessoas passam a ofender e a perseguir esta pessoa, isso já não é mais direito a opinião, é um ataque pessoal. Pense o que quiser delas, mas nenhum valor que você tenha lhe autoriza a fazer um linchamento moral em ninguém.

Essa inclusive é uma moralidade compartilhada por muitas religiões, no caso da nossa cultura claramente uma moral cristã. Ao fazer distinção de gêneros, estas culturas prestam um desserviço a humanidade, inferiorizando nossa própria espécie apenas por uma diferença que não deveria ser importante para as liberdades pessoais. Embora tenhamos a Declaração Universal dos Direitos do Homem, na nossa cultura ainda prevalece esta moralidade extremamente questionável, baseada em uma cultura antiga e misógina.

Enquanto isto não acontece, outras vítimas sofrerão com a transferência da culpa. É tão forte a falta de senso crítico que as pessoas praticamente dizem que os homens não são confiáveis, isso é normal e aceitável. Precisamos mesmo nos rever enquanto sociedade.

Um Comentário

  1. jacksonjunior

    É isso mesmo, Lucas!
    Fico muito puto quando vejo comentários sobre mulheres estupradas. Comentários do tipo “ela teve culpa, pois quem mandou sair de minissaia?”, entre outras coisas que nem adianta transcrever…

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