Sobre aquilo que nos afeta

Mais um dia da semana e Xika pega seu carro para ir trabalhar. No elevador de seu prédio, situado em um bairro de localização privilegiada ela encontra com crianças limpas e bem vestidas sendo encaminhadas aos seus colégios de muros altos e educação de alto nível. Xika cumprimenta os pais, ignora a presença da babá e interage com a criança, que embora tenha acesso a uma educação de qualidade acima da média, lhe falta educação doméstica. Ela pega seu carro e segue sozinha para o trabalho, ignorando o vizinho que ainda não teve condições de comprar seu próprio meio de transporte e vai enfrentar uma longa espera por um ônibus lotado para ir ao seu trabalho que fica a poucos metros do prédio que Xika trabalha. No caminho com seus vidros fechados e ar-condicionado ligado graças ao calor de nossa querida cidade, ela faz questão de ignorar tudo que está ao seu redor. As margens do canal que fica no caminho tem crianças, idosos, cães, vendedores, toda uma sorte de pessoas que de algum modo participam daquele ecossistema. Claro que Xika está completamente alheia a isso, ora concentrada no trânsito que simplesmente não flui, ora checando suas redes sociais e interagindo com seus amigos através de seu smartphone. Finalmente Xika chegou no trabalho, certa de 40 minutos antes que o seu vizinho e certamente muito mais limpa e menos amarrotada. Ela faz questão de cumprimentar os colegas, obviamente isto não inclui a equipe da limpeza e manutenção do prédio, afinal ainda por cima são terceirizados. Quando ela finalmente consegue ligar o computador, vê em um site de notícias uma reportagem sobre os meninos que precisam catar lixo dentro de um canal para aumentar a renda familiar. Profundamente comovida e de alma consternada, ela vorazmente compartilha e comenta como é possível que nos dias de hoje isso seja possível, culpa as autoridades e pede justiça social. E assim Xika acredita ter cumprido seu papel para um mundo melhor.

Obviamente nossa personagem é ficcional, mas poderia muito bem ser alguém que você conheça. Aliás, me atrevo a dizer que certamente você conhece ao menos alguém assim. A reportagem do JC foi fantástica, trouxe luz a um problema que muitos fazem questão de desconhecer porque é mais fácil dormir sem ter que imaginar esta realidade muitas vezes visível da janela do seu apartamento. Li e ouvi muitos comentários depois que a reportagem foi ao ar, inclusive de pessoas que eu sei que moram próximas a comunidades que vivem situações semelhantes. Uma onda de indignação, de revolta, um clamor por justiça social encheu os pulmões e os dedos de muita gente. Mas dai eu pergunto, será que isso é o máximo que pode ser feito?

Em termos práticos, se cada um dos revoltosos fizesse uma doação módica a uma entidade de apoio a criança e ao adolescente de sua escolha, quantos projetos não seriam viabilizados? Se você sugerir na sua empresa que seja criado um programa de assistência social com o apoio dos funcionários, quantas vidas não seriam verdadeiramente impactadas? Mais simples ainda, se cada um cobrasse de seu vereador, deputado e afins ações sociais para ajudar a retirar estas famílias de situações de risco, quantas destas ações não poderiam de fato sair do papel?

A verdade é que se você convive diariamente com alguém que acompanha nas redes sociais, vai notar que o que se fala é o que se quer ouvir, o que acreditar ser o politicamente correto. Mas é fácil ser politicamente correto nas redes sociais, difícil mesmo é tratar com respeito todas as pessoas independente de grau de instrução, cargo ou prestígio. Respeitar o ser humano, tratar gente como gente, desenvolver empatia pelo próximo e se colocar no lugar dele. Isso deve mesmo ser muito difícil. Não podemos esperar uma mudança no mundo se nós mesmos não nos revemos, nos avaliamos como cidadãos e buscamos o aprendizado, a humildade e o pensamento no coletivo. Não importa quantos “eus” existem, eles não são nada, não representam nada se não se tornarem “nos”.

Mudar o mundo pode não ser tão fácil, mas também não é tão difícil. A mudança mais importante é a interna, porque a partir do momento em que se ganha a consciência da responsabilidade que temos uns com os outros, começamos a nos tornar agentes de mudança. E essa responsabilidade não é oriunda de nenhum conceito econômico ou visão política, é pelo fato de sermos seres humanos, e cuidar uns dos outros não passa por ter mais condições, passa por ter mais empatia e amor pelo próximo. Desejo que esta mudança chegue mais rápido aos corações do que as curtidas do Facebook.

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