“Vou abrir minha igreja…”

Há três anos, dois repórteres da Folha de S. P. escreveram uma matéria que tinha como título “Vou abrir minha igreja e volto já!”. Foram. E abriram. Rapidinho. Com menos de uma semana e menos de 500 reais, os dois eram “donos” de uma igreja novinha em folha: Heliocêntrica do Sagrado Evangelho, se não me falha a memória.

Com registro e CNPJ, podiam abrir conta bancária e fazer aplicações financeiras livres de IR e IOF. Além de isenção de impostos sobre o patrimônio da igreja: IPTU, ISS, IPVA, ITR etc. E os dois, como sacerdotes, teriam direito a prisão especial.

A matéria listava dezenas de igrejas evangélicas. Anotei algumas: Abominação à Vida Torta; Automotiva do Fogo Sagrado; Menina dos Olhos de Deus; Fiel Até Debaixo D’Água; Florzinha de Jesus; Pentecostal Jesus Vem, Você Fica; A Cobrinha de Moisés; Bailarinas da Valsa Divina; Cuspe de Cristo; Igreja ETQB (Eu Também Quero a Bênção); Quadrangular O Mundo É Redondo e Pentecostal Marilyn Monroe. Nenhuma piada. Todas, rigorosamente todas, legalmente registradas. E moendo.

Picaretagem grossa. Um bando de vigaristas se valendo da boa fé, ingenuidade e ignorância de milhares de pessoas pobres por este país afora. Legislação frouxa, mas que não vai mudar nunca, pois eles, os pastores, elegem deputados, senadores e têm até bancada própria. Este, um lado da questão. O outro: quem são os crentes dessas igrejas?

Domingo retrasado, voltando da Festa Literária de Marechal Deodoro (AL) com o escritor Homero Fonseca, vimos levas e mais levas de crentes caminhando à margem da estrada. Alguns deveriam caminhar muitas léguas, pois a cidade ou lugarejo mais próximo era distante.  Andar firme. Cabeças altivas. Todos limpos e arrumados. Homens de paletó e gravata, com bíblia e guarda-chuva; mulheres e crianças com suas melhores roupas, domingueiras. Todos pareciam, se não felizes, orgulhosos.

Ao passar pelas cidades e povoados – sempre muito devagar, pois a estradas alagoanas são as que mais têm quebra-molas no mundo –, barracas de cachaça, homens bêbados (chegamos a ver dois brigando), mulheres e mocinhas (algumas com não mais que doze anos) com shorts muito curtos e apertados, barriga de fora, e crianças tentando vender alguma coisa ou pedindo um trocado. Quando não era isso, alguns trabalhadores da palha da cana (apesar de domingo) com seus instrumentos de trabalho, caminhando cansados. E cabisbaixos.

É fato que as religiões atuam, desde sempre, como poderosos instrumentos de controle e contenção social. Não há um único artigo do código penal que não conste das leis de qualquer igreja, começando por matar. Roubar é crime. Para a religião, basta cobiçar. Comer a mulher dos outros, pela lei, é adultério; na religião, só desejar já é pecado; não precisa nem comer, basta pensar. Se comer demais faz mal à saúde, gula é pecado. E nas religiões evangélicas, as normas são ainda mais rígidas. Nada de beber nem jogar. Algumas não permitem nem televisão (a não ser que o bispo tenha uma emissora ou programa).

Ora, nada mais conveniente às parcas finanças do pobre do que ser crente. “O dízimo sai barato”, disse Homero Fonseca. E sai mesmo. Com os limites impostos pela religião, sobra um dinheirinho para o paletó, a gravata, o guarda-chuva, o caminhar firme e a cabeça altiva.

E se os rebanhos dos pastores são conformados e resignados com suas condições de vida, pois terão o reino do céu, os dois bêbados que vimos brigando na beira da estrada também não vão fazer nenhuma revolução social.

JocaSouzaLeão
Joca Souza Leão é cronista.
jocasouzaleao@gmail.com

(Publicada originalmente no JC de 12/Out/2013)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s