A intolerância nossa de cada dia.

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…E hoje eu fui vítima de, adivinhem só: Homofobia!

Estava eu com meus coleguinhas de classe (2 mulheres e 1 homem; todos heterossexuais como eu, e não que isso seja de total relevância em minha crítica) no saudoso Barro/Macaxeira, à caminho de nossas respectivas casas. O ônibus não estava tão lotado como o habitual, mas ainda assim as cadeiras estavam praticamente ocupadas; quando eu consegui um lugar para mim (obviamente que as meninas já estavam muito bem acomodadas) e brinquei com meu amigo, pra ele sentar no meu colo, o tipo de “tiração de onda” mais clichê nos coletivos, principalmente entre camaradas do sexo masculino. Mas eis que ele de fato senta em uma de minhas pernas, numa resposta muito bem humorada e positiva à minha zoação – afinal, não é de hoje que o nosso “namoro” é a piada interna mais comentada em sala, reflexo da nossa boa relação e convívio, de uma forma genérica.

As meninas caíram na gargalhada e inclusive queriam tirar uma foto pra compartilhar na sala, coisa boba e já registrada anteriormente numa outra ocasião descontraída, sem nenhum tipo de frescura, por mais frescurenta que possa parecer a situação diante de olhos machistas, retrógrados e ignorantes (e por que não, enrustidos? rs).

Aí é que entra o sujeito em questão, que estava sentado ao meu lado; e diante de todo aquele instante de amistád e descontração juvenil que nós usufruímos poucos momentos em que não estamos pensando nas responsabilidades acadêmicas que sufocam toda uma semana (e nossas vidas); o indivíduo resolve sair de forma brusca, regado de acidez e escárnio do lugar onde estava acomodado, incomodado por um motivo que inexistia, existindo apenas em sua mente infame, intolerante e preconceituosa (os demais passageiros perceberam a brincadeira e inclusive riram. Tanto da piada quanto da atitude imbecil do homem). Decidiu ficar ali, em pé, rente à porta de saída, até o caminho de casa, do que ficar ao lado de dois amigos que simularam uma situação homoafetiva pelo fato de serem pessoas muito bem esclarecidas que se respeitam e que se curtem além de qualquer julgamento e baboseira conservadora que possa surgir em decorrência de uma grande maioria medieval que ainda polui a nossa sociedade, a nossa política, a nossa cultura, o nosso pensamento, manchando o nosso humanismo, nossa cidadania, liberdade e igualdade defendida por lei, garantida à todos, sem restrições. (Século XXI minha gente!)

Não somos um casal; não somos gays, mas sentimos na pele, através da atitude e provocações expressas, a dor e o constrangimento que os nossos irmãos de Orientação Sexual Diferente sentem quando são coagidos de forma semelhante (e até pior. Muito pior!). Fiquei atônito, ensaiei um riso obscurecido pelo sentimento de tristeza e constrangimento latente, e posteriormente fui tomado por um ímpeto de revolta quase incontrolável. Senti vontade de vomitar sobre ele o que havia no meu estômago e na minha mente naquele exato momento, mas a serenidade que me é inerente quando encontro-me em certos tipos de situações conflituosas me manteve, e não regredi os degraus necessários para me encontrar à altura de toda aquela podridão humana.

Claro que o problema não foi o fato dele ter se retirado, têm toda a liberdade pra isso. A questão é: O que o motivou a agir de forma tão grotesca? Quais os supostos fundamentos que poderiam ser argumentados por ele, a fim de justificar tamanha insensatez; dado o nosso conhecimento atual sobre sexualidade e direitos humanos enquanto indivíduos racionais e evoluídos intelectualmente? Inúmeras vezes tive mulheres sentadas em meu colo, exatamente como na situação aqui descrita – amigas e namorada, mas nunca, NUNCA, N-U-N-C-A houve resposta semelhante; nunca houve humilhação, nunca houve cara feia, nunca houve ódio nem preconceito, muito menos uma reivindicação tola pelo prezar dos “bons costumes” ( e que nenhum hipócrita ouse a contra-argumentar com tamanha falácia)

Tudo isso por um sentar de colo; tudo isso por um gesto de afetividade entre dois amigos, dois seres humanos; tudo isso pela repulsa de um suposto amor que poderia existir ali, tão natural e benigno quanto qualquer outro, que foi e infelizmente ainda vêm sendo reprimido, deturpado, demonizado e oprimido através dos séculos, atitude transpassada por um resquício de uma concepção global d’uma época obscura e cruel, marcada por cruzadas e sangues, por bruxas e fogueiras, escravidão e atrocidades justificadas pelo “sagrado” e pelo “divino”; uma Ode à Idade das Trevas que ainda se mantêm enraizado nas camadas mais profundas do ser humano como um câncer incurável… Quando vamos nos curar disso? Quando vamos proclamar o “Amai o próximo como a ti mesmo” sem toda essa merda de hipocrisia e demagogia? Quando vamos realmente valorizar todo o conhecimento adquirido e compartilhado pelos nossos ancestrais ao longo das eras, diante de toda a dificuldade imposta por aqueles que se diziam donos da verdade absoluta baseados em suas convicções pessoais, alimentando suas ambições, poderes e fraquezas através de regras ditadas advindas de meras entidades mitológicas? Quando vamos valorizar toda a nossa capacidade cognitiva, toda a nossa suposta racionalidade?

Enfim, eu precisava desabafar. Fica aqui o meu repúdio, e mais ainda o meu apoio à causa GLBTT, com muito mais ênfase.

Sempre estive a favor das reivindicações de direitos, na luta pela Igualdade e a Liberdade, intrínsecas a qualquer ser humano, seja ele branco, preto, gay, hétero, cristão, umbandista, ateu; e o que passei hoje só me fortaleceu a continuar mantendo o foco, e tenho orgulho de ser o que sou, por mais adversas que sejam as consequências decorrentes, preto, ateu, racionalista, livre pensador e viciado em QotSA com orgulho!

 Um brinde ao humanismo! Sempre na luta!

 Ezequiel Leandro Jr.

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