Por um 2015 com menos especialistas

Estive mais ausente das discussões nas redes sociais em 2014. Mas sempre acompanhando de perto o que estava acontecendo na rede. Nem vou falar das discussões políticas que foram influenciadas pelas eleições presidenciais, se este ano o povo continuar assim tão “politizado” dai escrevo sobre o assunto. Falo dos movimentos sociais dos mais variados segmentos e devo dizer, houveram momentos em que tive vontade até mesmo de não acompanhar mais nada de tantos absurdos que li este ano que passou. Continuar lendo

Quarta-feira é dia de Iansã

Epahey Oyá meus amigos! Calma, não estou me convertendo ao candomblé. Depois de muito pensar sobre o ocorrido na Faculdade de Direito do Recife (se não sabe do que se trata, clique aqui) eu decidi não escrever sofre o fato em si. Primeiro porque eu acredito que já foi amplamente divulgado, embora acredite que o assunto não está sendo tratado com a devida atenção, se fosse a outra santa a ter a cabeça decepada será que já não teriam sido encontrados os autores? Segundo porque acredito que esta é uma boa oportunidade de conhecermos a cultura do povo dos terreiros. Continuar lendo

Efetivar o Estado Laico

EfetivarOEstadoLaico

O monoteísmo não é nada democrático. A crença em um deus único pressupõe a negação da existência do deus do vizinho. Pior: pressupõe que os mandamentos do seu deus são mais justos que os do deus do vizinho. E é natural que todos aqueles que se arroguem o direito de falar em nome deste deus único e todo-poderoso não primem muito pelo pluralismo. Quem ousaria contestar alguém que fala em nome de um deus onipotente, onipresente e onisciente?

A história está repleta de casos de políticos que sustentaram seu poder em nome de Deus. A teoria do “Direito Divino dos Reis”, em voga no século XVII, deu a Luiz XIV a necessária fundamentação ideológica para tornar-se o maior monarca absolutista da França: “L`État c`est moi” (O Estado sou eu) é a frase que melhor sintetiza o poder do mandatário de Deus na Terra.

No século seguinte, a mão de Deus não evitou que as cabeças de seus representantes na Terra rolassem e só então os ideais iluministas de separação entre direito e religião começaram a prevalecer. Nascia, assim, a concepção de um Estado laico que viria a nortear as democracias ocidentais até hoje.

No Brasil, durante todo o Império, o catolicismo continuou sendo a religião oficial, e as demais eram apenas toleradas (art.5º da Constituição de 1824). Como Estado confessional, o imperador antes de ser aclamado jurava manter aquela religião (art.103) e cabia a ele nomear os bispos (art.102, XIV). Somente com a proclamação da República, o Brasil se tornou um Estado laico, garantindo assim a separação entre Estado e religião (art.72, §3º a 7º da Constituição de 1891).

A atual Constituição brasileira de 1988 não deixa dúvidas quanto ao caráter laico de nosso Estado, garantindo expressamente a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de organização religiosa (art. 5, VI da CR) e estabelecendo claramente a separação entre Estado e religião (art.19, I, da CR).

E “nunca antes na história deste país” esta separação entre direito e religião foi tão importante. Com a expansão das religiões neo-pentecostais nos últimos anos, o catolicismo, que sempre foi francamente majoritário no Brasil, começou a perder espaço e os brasileiros começaram a deparar com os problemas típicos do pluralismo religioso.

Divergências de crenças de um povo 90% cristão

Pesquisa Datafolha de maio de 2007 mostrou que 64% dos brasileiros se declaram católicos, 17% evangélicos pentecostais ou neo-pentecostais, 5% protestantes não pentecostais, 3% espíritas kardecistas, 1% umbandistas, 3% outra religião e 7% sem religião.

Poderíamos simplificar estes números e afirmar que o Brasil é um país 90% cristão, mas, na verdade, estas religiões divergem sobre pontos significativos de suas doutrinas, a começar por católicos e protestantes. Para os protestantes a Bíblia é a única fonte de revelação de Deus e tendem a interpretá-la em sentido mais literal. Já os católicos acreditam também na Sagrada Tradição, isto é, nos ensinamentos orais transmitidos pelos cristãos ao longo dos séculos, como complementares ao texto bíblico. Daí surgem diferenças importantes: católicos adoram os santos e Maria, mãe de Cristo; os protestantes, não. Católicos reconhecem o Papa como líder espiritual e acreditam nos sete sacramentos como instrumento para sua salvação; os protestantes creem que somente a fé em Jesus é capaz de salvá-los. Católicos interpretam o livro do Gênesis, que narra a história de Adão e Eva, como uma metáfora; alguns protestantes o interpretam literalmente e defendem o ensino do criacionismo na escola.

Mas há diferenças significativas também entre as Igrejas Protestantes históricas (Batistas, Luteranos, Presbiterianos, Metodistas e outras) e as Pentecostais (conhecidos no Brasil como evangélicos). A principal delas é a de que os pentecostais acreditam que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, por meio das práticas de curas milagrosas, profecias e exorcismos, entre outras.

Há diferenças substanciais também entre entre o Pentecostalismo Clássico (Assembleia de Deus, Congregações Cristãs, Deus é Amor e outras) e o Movimento Neo-Pentecostal (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e outras). A primeira delas é visível: os pentecostais clássicos se vestem com roupas bastante formais por imposição das Igrejas: homens de terno; mulheres de saias longas e cabelos compridos. Outros usos e costumes rígidos normalmente são impostos aos fiéis, como por exemplo, não assistir a TV e não praticar esportes e, para as mulheres, não se depilarem ou usarem anticonceptivos. O conservadorismo é a tônica da doutrina pentecostal clássica que se baseia no ascetismo e no sectarismo. Já os neo-pentecostais são bem mais liberais, não se vestem de forma determinada e têm como principal foco a Teologia da Prosperidade, que propugna que os fiéis têm o direito de desfrutar uma vida terrena com saúde e riquezas materiais. Para tanto, precisam demonstrar sua devoção a Deus doando suas economias de modo a se tornarem credor de Deus em uma dívida que será paga com a concessão das dádivas divinas. O sacrifício ascético do corpo é substituído por um sacrifício econômico em honra de Deus.

Finalmente os neo-pentecostais possuem uma divergência inconciliável com os espíritas. Ambos creem em manifestações sobrenaturais na vida cotidiana. Os espíritas acreditam na reencarnação e creem que estas manifestações são causadas por espíritos de pessoas comuns que faleceram e ainda não reencarnaram. Já os neo-pentecostais não acreditam em reencarnação e nem na possibilidade dos mortos se comunicarem com os vivos. Para eles, estes espíritos são na verdade manifestações do demônio e, portanto, precisam ser combatidos. Daí por que há tanta hostilidade entre evangélicos e espíritas: enquanto estes creem conversarem com os espíritos de parentes e amigos já falecidos, aqueles os acusam de conversar com demônios.

Crucifixos em prédios públicos

Neste contexto fervilhante de crenças, nada mais natural que se retome as discussões sobre a importância do estado laico. Enquanto o Brasil era um país com população quase que exclusivamente católica, a maioria simplesmente impunha suas crenças sobre a minoria que, de tão pequena, não levantava sua voz para lutar pelo estado laico.

Basta ver os crucifixos afixados nas paredes dos tribunais e órgãos públicos brasileiros. Se até então o símbolo do predomínio católico em nossos tribunais só incomodava à pequena minoria não cristã da população, atualmente muitos protestantes já se insurgem contra ele. Infelizmente, em 2007, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que os crucifixos nos tribunais não violam o princípio constitucional da laicidade, por se tratar de um costume já arraigado na tradição brasileira. Com este simplório argumento, os conselheiros do CNJ justificariam até mesmo a escravatura que, quando foi abolida em 1888, ainda era costume no Brasil. Se costume fosse fundamento jurídico para justificar o próprio costume, as mulheres ainda teriam que se casar virgens, não haveria o divórcio e o adultério ainda seria crime. Fato é que tribunais e órgãos públicos são mantidos com dinheiro público e não devem expressar as crenças pessoais de seus dirigentes. Os crucifixos não são, pois, apenas um símbolo do predomínio católico, mas antes de tudo de uma apropriação privada da coisa pública para a manifestação de crenças pessoais.

Ensino religioso nas escolas públicas

A questão atualmente mais polêmica que decorre do princípio constitucional da laicidade é a do ensino religioso, de matrícula facultativa, nas escolas públicas, previsto expressamente no art.210, §1º, da Constituição Brasileira.

O Acordo Brasil-Vaticano (Decreto 7.107/10) que em seu art.11, §1º, prevê “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” provocou imediata reação da sociedade civil ao colocar em risco a igualdade de tratamento entre as religiões. A constitucionalidade do dispositivo está sendo contestada atualmente no Supremo Tribunal Federal (ADI 4.439) pela Procuradoria-Geral da República que defende corretamente que o ensino religioso no Brasil deva ser não confessional, limitando-se, pois a um apanhado teórico da diversidade de religiões existentes em nosso país.

Melhor seria, porém, que o Estado deixasse cada família decidir sobre a melhor formação religiosa de seus filhos, matriculando-os em cursos fornecidos pelas próprias Igrejas e outras instituições religiosas. Uma emenda constitucional que abolisse o ensino religioso nas escolas públicas resolveria de vez a controvérsia relegando a formação religiosa para a esfera exclusivamente privada.

A meta do Estado laico

O Estado laico ainda é uma meta a ser perseguida pelo Direito brasileiro. Se na questão dos crucifixos e do ensino religioso, a manifestação de cristãos não católicos tem sido decisiva para colocar em pauta os debates, as violações do princípio da laicidade tendem a ser menosprezadas quando há consenso entre católicos e protestantes.

Veja-se, por exemplo, o art.79, §1º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados que prevê que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”. Se o Estado é de fato laico e a religião não deve ser fundamento da elaboração das leis, qual sentido há neste dispositivo? Se o deputado é cristão, que compre sua própria Bíblia e a leve consigo.

O nome do Deus monoteísta tem sido usado sem maiores pudores na esfera pública, ao argumento de que contemplaria todas as religiões. Alega-se que o preâmbulo da Constituição de 1988 se refere expressamente à “proteção de Deus” e, portanto, o ateísmo estaria excluído da liberdade de crença. Trata-se de um falso fundamento jurídico, já que o preâmbulo, por sua própria definição, é o texto que antecede a norma e, portanto, não faz parte dela. Em suma: não tem qualquer valor normativo.

A liberdade constitucional de crença é também uma liberdade de descrença e ateus e agnósticos também são cidadãos brasileiros que devem ter seus direitos constitucionais respeitados. O mesmo se diga em relação aos politeístas que acreditam em vários deuses e não aceitam a ideia de um deus onipotente, onisciente e onipresente.

Um bom exemplo do uso do nome de Deus com violação do princípio da laicidade é a expressão “Deus seja louvado” no dinheiro brasileiro. Como não incomoda à maioria da população, acaba sendo negligenciada em detrimento dos direitos constitucionais dos ateus, agnósticos e politeístas que ainda não são bem representados no Brasil. Já se vê, porém, algumas destas expressões riscadas à caneta nas notas brasileiras, o que é uma clara manifestação de descontentamento com o desrespeito à descrença alheia.

O paradoxal desta menção de Deus no dinheiro brasileiro é que a Bíblia narra (Mateus: 22, 21) uma passagem na qual Jesus rechaça uma tentativa de uso político de seus ensinamentos e reconhece a importância do estado laico, referindo-se justamente à moeda romana: “Dai o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”. Das duas, uma: ou o Deus cristão mudou de ideia nestes últimos dois mil anos ou seus representantes na Terra andam excedendo os limites da procuração por Ele outorgada.

Por Túlio Vianna Professor de Direito Penal da Faculdade de Direito da UFMG, Doutor (UFPR) e Mestre (UFMG) em Direito.

Este texto é parte integrante do meu livro “Um Outro Direito“.
Se desejar citá-lo, basta copiar as referências bibliográficas abaixo:
VIANNA, Túlio. Um Outro Direito. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2014. p.7-12.

O encanto da simplicidade

 

Acabei de assistir o 3º episódio da nova série Cosmos. E é inevitável me pegar pensando em como a cena final dele me emocionou. Talvez essa seja a maior das semelhanças e também a maior das divergências entre pessoas profundamente religiosas e eu. Ambos conseguimos extrair o máximo de emoção ou sentimento de um determinado evento, por mais trivial que seja; e então divergimos profundamente. Uns veem a beleza no próposito, no significado; Já eu, vejo a beleza exatamente no oposto. O tic-tac cósmico, a hamonia que emerge do caos do espaço. Para mim nada é mais emocionante, nem mais audacioso, do que tentar intender o nosso lar sem as amarras do propósito, ou as correntes do significado. Quem me dera transmitir o furor de emoções e os arrepios na espinha que sinto sempre que penso nas 400 bilhões de estrelas de nossa galáxia, ou de saber que existem outras bilhões universo à fora. Ou o eriçar dos pelos da nuca pelo vislumbre de um átomo ou espaço “vazio”.

Tanta coisa a se buscar, a se aprender. E alguns ainda conseguem se trancar na pequeneza de suas próprias mentes, como um barco que naufraga antes mesmo de granhar os mares. Alguns veem na falta de propósito do mundo a causa perdida; isso é normal. Esse é o desespero que a liberdade causa àqueles que viveram presos. O que muitos veem como causa perdida, eu vejo como oportunidade. Por que existir um propósito, quando cada um pode fazer o seu próprio? Infelizmente a maioria das pessoas que conheço querem a liberdade, o livre arbítrio, mas rejeitam a sua forma mais pura: a falta de propósito. Como se, culpada pela sua simplicidade, ela não fosse digna de ser aplaudida, admirada.

Talvez esse seja o maior problemas das pessoas. Elas deixaram de admirar as coisas belas pela sua simplicidade. No meio de smartphones, computadores e sapatos com tecnologias espaciais, até olhar o desabrochar de uma flor parece requerer a manipulação de um laureado ao Nobel. Talvez nós olhamos por tanto tempo para o abismo que agora nos sentimos vigiados por ele; talvez lutamos contra tantos monstros que acabamos nos tornando um.

O discurso neopentecostal e a surdina

É comum ouvirmos, lermos, assistirmos a discursos de enfrentamento a fundamentalistas cristãos, no Brasil. Diz-se que eles são contraditórios, que são hipócritas, que, sendo religiosos, deveriam pregar amor e respeito, e não o ódio contra minorias. Muitos afirmam que esses pastores são ignorantes e não sabem do que falam. Há, ainda, quem acredite que seu discurso é vazio, esdrúxulo e folclórico, que não devemos levá-los a sério.

Mas nenhum gesto, nenhuma palavra emitida por esses “líderes” religiosos vem ao acaso nem desprovida de intenção. Falam para pessoas desesperadas, abandonadas pela sorte, abandonadas pelas instituições, abandonadas pela sociedade e pelo Estado.

Certo filósofo alemão disse certa vez que “a história de todas as sociedades tem sido a história das lutas de classe”. E as religiões estão incluídas nesse contexto. Sempre estiveram presentes e influenciaram as grandes questões sociais. De um modo ou de outro.

A guerra contra o Movimento LGBT e contra as religiões de matriz africana não é uma questão religiosa. É uma questão de estratégica. Porque se encaixa no argumento “está escrito na Bíblia”. E pronto, já fundamentam seu discurso de ódio. Além disso, costumam estender esse argumento às ciências, pois como já afirmou o divulgador científico e astrofísico Neil deGrasse Tyson, “Deus é um bolso cada vez mais vazio”. Ou seja, o que antes era argumento da religião, hoje é teorizado pela Ciência, e cada vez menos aceitamos explicações fantásticas a respeito da vida e do Universo. Portanto, no discurso neopentecostal, a Ciência “não é de Deus”.

Marcos Feliciano, Silas Malafaia, Valdomiro Santiago, Edir Macedo, Missionário R.R. Soares, entre outros, fazem parte de um processo de teocratização, no Brasil e no mundo. Eles encontram espaços aonde as instâncias de Governo não vão, aonde a sociedade não quer ir.

Seu discurso é baseado nos escritos sagrados da Bíblia, na verdade bíblica. Mas sabemos todos como eles são inteligentes o bastante para filtrar o que lhes interessa, o que lhes convêm citar. Criaram uma espécie de universo paralelo, onde o mundo se divide entre os que amam a Deus (judaico-cristão-evangélico-neopentecostal, claro) e os que queimarão no mármore do Inferno.

São articulados, sistemáticos e extremamente organizados. Avançam à surdina. Compram emissoras de rádio e TV, gráficas, editoras e pequenos negócios em regiões suburbanas. Elegem bancadas (ditas) evangélicas em câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Alcançam altas esferas no Governo Federal. Não é à toa de estão na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e no Ministério da Ciência e Tecnologia. Cada passo que dão caminha para um projeto de Poder. Querem implantar, no Brasil, uma teocracia neopentecostal.

É por isso que devemos, todos os dias, defender a laicidade do Estado brasileiro. É preciso garantir o livre culto, mas também o livre pensar. Precisamos entender que esse “avanço do retrocesso”, como costumo chamar, é um assunto da nossa conta. Precisamos denunciar e combater essa máfia da religião, esses mercadores da fé.

sai-tolerancia

Além disso, há religiosos que condenam e ajudam a combater essa teocratização do país e falam em defesa do Estado laico. Pessoalmente, tenho amigos cristãos (e não cristãos, mas religiosos) que jamais promoveram qualquer ato contra homossexuais, ateus e agnósticos, ou contra religiões de matriz africana. Esses, aliás, parecem ser os alvos preferidos dos neopentecostais.

Mas nosso discurso não deve ser do ódio, da intolerância à crença alheia, mas o discurso da liberdade de livre culto, de livre pensamento e de respeito às diferenças. Afinal, Estado laico é Estado neutro.

EstadoLaicoNaçãoJurídica

Significado de Estado laico: http://www.significados.com.br/estado-laico/

Espalhe as hashtags #TeocraciaNÃO #RespeitoÀsDiferenças #EstadoLaicoEstadoNeutro #APE.

A Punição da Vítima

Júlia Rebeca - Foto: Reprodução/Instagram

Foto: Reprodução/Instagram

Júlia Rebeca, uma jovem na cidade de Parnaíba no interior do Piauí tem um vídeo divulgado no Whatsapp em um momento íntimo com um rapaz e outra jovem. Parece que a história se repete, não faz muito tempo uma jovem de Goiânia passou por caso semelhante. Embora tenham finais bem diferentes, estes dois casos tem em comum o fato de que a vítima é severamente punida, enquanto seu algoz até o momento sequer punição sofreu.  Continuar lendo

Sobre aquilo que nos afeta

Mais um dia da semana e Xika pega seu carro para ir trabalhar. No elevador de seu prédio, situado em um bairro de localização privilegiada ela encontra com crianças limpas e bem vestidas sendo encaminhadas aos seus colégios de muros altos e educação de alto nível. Xika cumprimenta os pais, ignora a presença da babá e interage com a criança, que embora tenha acesso a uma educação de qualidade acima da média, lhe falta educação doméstica. Continuar lendo

Rebatendo a Homofobia

Não é de hoje que homossexuais são perseguidos, e é fácil encontrar notícias referentes a homofobia, se brincar quase todo dia leio algo sobre. Até mesmo em família escuto alguns absurdos, que quase sempre quando estou disposta a receber cara feia, rebato. Cansada de ouvir/ler tanta rejeição a isso, que na verdade é algo tão simples, tão normal, que resolvi fazer esse post esclarecendo algumas coisas. Não, isso não vai mudar o mundo, não vai fazer todos começarem a “aceitar” gays, mas acredito que possa ajudar na reflexão de algumas pessoas com pensamentos homofóbicos, ou a construir argumentos, caso precisem em alguma situação chata dessa.

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O Canadá e Sua Crença

Faz um pouco mais de 3 meses que saí do Brasil e vim estudar durante um pouco mais de um ano no Canadá. Felizmente vim parar numa cidade pacata no extremo sul do país. E embora tranquila, St. Catharines é uma das 10 maiores cidades da província de Ontario. Para aqueles que não estão familiarizados com a geografia canadense, Ontario é uma das principais províncias do Canadá, e talvez a principal província em termos de economia e política; é nela que estão situadas as cidades de Toronto e Ottawa, esta última a capital do Canadá (surpreso? Toronto não é a capital do Canadá, como muita gente pensa). Para aqueles que gostam de viajar e de belas paisagens, St. Catharines fica a 20 minutos das famosas Cataratas do Niágara, ou seja a fronteira com os EUA.

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“Vou abrir minha igreja…”

Há três anos, dois repórteres da Folha de S. P. escreveram uma matéria que tinha como título “Vou abrir minha igreja e volto já!”. Foram. E abriram. Rapidinho. Com menos de uma semana e menos de 500 reais, os dois eram “donos” de uma igreja novinha em folha: Heliocêntrica do Sagrado Evangelho, se não me falha a memória.

Com registro e CNPJ, podiam abrir conta bancária e fazer aplicações financeiras livres de IR e IOF. Além de isenção de impostos sobre o patrimônio da igreja: IPTU, ISS, IPVA, ITR etc. E os dois, como sacerdotes, teriam direito a prisão especial.

A matéria listava dezenas de igrejas evangélicas. Anotei algumas: Abominação à Vida Torta; Automotiva do Fogo Sagrado; Menina dos Olhos de Deus; Fiel Até Debaixo D’Água; Florzinha de Jesus; Pentecostal Jesus Vem, Você Fica; A Cobrinha de Moisés; Bailarinas da Valsa Divina; Cuspe de Cristo; Igreja ETQB (Eu Também Quero a Bênção); Quadrangular O Mundo É Redondo e Pentecostal Marilyn Monroe. Nenhuma piada. Todas, rigorosamente todas, legalmente registradas. E moendo.

Picaretagem grossa. Um bando de vigaristas se valendo da boa fé, ingenuidade e ignorância de milhares de pessoas pobres por este país afora. Legislação frouxa, mas que não vai mudar nunca, pois eles, os pastores, elegem deputados, senadores e têm até bancada própria. Este, um lado da questão. O outro: quem são os crentes dessas igrejas?

Domingo retrasado, voltando da Festa Literária de Marechal Deodoro (AL) com o escritor Homero Fonseca, vimos levas e mais levas de crentes caminhando à margem da estrada. Alguns deveriam caminhar muitas léguas, pois a cidade ou lugarejo mais próximo era distante.  Andar firme. Cabeças altivas. Todos limpos e arrumados. Homens de paletó e gravata, com bíblia e guarda-chuva; mulheres e crianças com suas melhores roupas, domingueiras. Todos pareciam, se não felizes, orgulhosos.

Ao passar pelas cidades e povoados – sempre muito devagar, pois a estradas alagoanas são as que mais têm quebra-molas no mundo –, barracas de cachaça, homens bêbados (chegamos a ver dois brigando), mulheres e mocinhas (algumas com não mais que doze anos) com shorts muito curtos e apertados, barriga de fora, e crianças tentando vender alguma coisa ou pedindo um trocado. Quando não era isso, alguns trabalhadores da palha da cana (apesar de domingo) com seus instrumentos de trabalho, caminhando cansados. E cabisbaixos.

É fato que as religiões atuam, desde sempre, como poderosos instrumentos de controle e contenção social. Não há um único artigo do código penal que não conste das leis de qualquer igreja, começando por matar. Roubar é crime. Para a religião, basta cobiçar. Comer a mulher dos outros, pela lei, é adultério; na religião, só desejar já é pecado; não precisa nem comer, basta pensar. Se comer demais faz mal à saúde, gula é pecado. E nas religiões evangélicas, as normas são ainda mais rígidas. Nada de beber nem jogar. Algumas não permitem nem televisão (a não ser que o bispo tenha uma emissora ou programa).

Ora, nada mais conveniente às parcas finanças do pobre do que ser crente. “O dízimo sai barato”, disse Homero Fonseca. E sai mesmo. Com os limites impostos pela religião, sobra um dinheirinho para o paletó, a gravata, o guarda-chuva, o caminhar firme e a cabeça altiva.

E se os rebanhos dos pastores são conformados e resignados com suas condições de vida, pois terão o reino do céu, os dois bêbados que vimos brigando na beira da estrada também não vão fazer nenhuma revolução social.

JocaSouzaLeão
Joca Souza Leão é cronista.
jocasouzaleao@gmail.com

(Publicada originalmente no JC de 12/Out/2013)